A gastronomia de fusão no coração do Paraná

rebuliço do beto carrero

Sabe aquele cheiro de terra molhada que sobe quando a gente começa a descer a Serra do Mar, logo depois que o trem sai da estação de Curitiba? Para quem vive aqui ou conhece bem a região, esse aroma é o prenúncio de uma das experiências sensoriais mais ricas do Sul do Brasil. Falar de gastronomia no Paraná, especialmente no eixo que liga a capital ao litoral, é falar de uma fusão que aconteceu muito antes de o termo “fusion food” virar moda nos menus requintados. Em Curitiba, a mesa é um reflexo direto daquela arquitetura que a gente vê no Centro Histórico ou passeando pelo Bosque Alemão. É uma mistura orgânica. Você caminha pelo bairro de Santa Felicidade e, sim, o sotaque é italiano, mas o frango com polenta dali já ganhou uma alma puramente paranaense. A gente usa o pinhão — nossa semente sagrada da Araucária — para dar corpo a risotos, farofas e até sobremesas. É uma cozinha de resistência e adaptação. O frio da capital pede sustância, pede o calor da lenha, e isso moldou o paladar de quem vive por aqui. Mas a verdadeira mágica acontece quando a gente atravessa a barreira da Serra. Se você optar pelo passeio de trem — e eu sempre digo que todo mundo deveria fazer isso pelo menos uma vez na vida, sem pressa, olhando as frestas da Mata Atlântica — a transição climática vem acompanhada de uma mudança drástica no prato. Ao chegar em Morretes ou Antonina, o ar fica mais denso, mais quente, e o estômago começa a pedir algo que conte a história daquelas pedras e rios. É aí que entra o Barreado. Muita gente acha que é só um cozido de carne, mas o Barreado é um ritual técnico. Imagine uma panela de barro pesada, vedada com uma mistura de farinha de mandioca e cinzas (ou água), onde a carne bovina cozinha por mais de doze horas até se desmanchar por completo. Não sobra fibra inteira, apenas um creme rico e profundamente temperado com cominho e louro.

O segredo da fusão aqui está no acompanhamento. A farinha de mandioca de Morretes, fininha e torrada, é o que dá a liga. O prato se completa com a doçura da banana-da-terra, criando aquele contraste entre o salgado intenso da carne e o aveludado da fruta. É o tipo de comida que te abraça por dentro. E tem aquela brincadeira tradicional: se o garçom conseguir virar o prato sobre a sua cabeça e a mistura não cair, é porque o ponto da farinha está perfeito. Eu já vi muito turista prender a respiração nessa hora. A gastronomia de fusão paranaense também brilha nos pequenos detalhes. Em Antonina, cidade vizinha de Morretes, o destaque vai para os frutos do mar com influências caiçaras autênticas. Não é raro encontrar um preparo que mistura a técnica europeia de um confit com ingredientes locais, como o siri ou os peixes de estuário. Curitiba, por outro lado, se transformou em um hub de criatividade. Perto do Museu Oscar Niemeyer (o famoso Museu do Olho), existem cafés e bistrôs que pegam essa herança do litoral e a transformam em algo contemporâneo. Um café coado na hora acompanhado de uma bala de banana de Antonina ou um pão de fermentação natural com geleia de frutas nativas da Serra.

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